Qual é o trabalho desenvolvido pelas psicólogas no Projeto Menina-mãe?

Primeiramente o nosso papel aqui é dar acolhimento a essas meninas que chegam ao projeto, muitas vezes sem se darem conta do processo de mudança do qual farão parte a partir dessa nova condição.  Esse processo de mudança do qual estou me referindo, vai além das transformações fisiológicas e anatômicas que como elas mesmas dizem: “é quando cai a ficha”, mas principalmente os sentimentos advindos depois dessa constatação: arrependimento; insegurança quanto ao seu futuro e o da criança; o futuro de seu relacionamento com seu parceiro; a possibilidade de sair de casa ou continuar morando com os pais; e por aí segue. Então enquanto a grande parcela da sociedade e até mesmo a família, muitas vezes as discriminam, fazemos o caminho inverso, nós damos orientação e suporte emocional para que elas sejam capazes de passar por esse período tão marcado de transformações, da maneira mais saudável possível, de modo que tanto a mãe quanto o bebê tenham a oportunidade de começar uma relação com um vínculo afetivo fortalecido, muitas vezes diferente do contexto do qual estão inseridas.

E todo esse percurso é construído através de atividades lúdicas, com dinâmicas de grupo que oportunizam a livre expressão dos sentimentos que acabam por serem validados pelo grupo, que quase sempre têm experiências parecidas, o que acaba as fortalecendo, pois ao constatarem que compartilham de realidades parecidas, percebem que não estão sozinhas.
O atendimento clínico psicológico individual também é realizado de acordo com a necessidade de cada uma, pois ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, nem toda experiência de gravidez na adolescência é conflituosa. Muitas afirmam que sempre tiveram o sonho de ser mãe, o que nos reforça a pensar que: apesar de não ter sido uma gravidez programada muitas vezes é uma gravidez desejada. Mesmo que inconscientemente. É como se ganhassem um status na sociedade, ou seja, um lugar de importância, pois muitas são oriundas de famílias desestruturadas, com um histórico de vida difícil e com uma auto-imagem empobrecida e frágil. E essa criança chega então, como alguém que realmente será parte da vida delas, alguém real, que realmente poderão chamar de seu, que não irão abandoná-las quando numa situação difícil. Poderão dar e receber carinho, algo mais concreto do que costumam ter.

Qual o principal objetivo do projeto?

 

O objetivo maior do projeto é desenvolver a autonomia dessas jovens, fazendo com que elas se sintam suficientemente seguras para assumirem seu papel de “mãe”, mas não como coadjuvantes, como acontece regularmente, onde as avós é que acabam assumindo esse papel, mas que elas mesmas assumam esse compromisso que requer muito mais responsabilidades do que estavam acostumadas. Construindo essa nova identidade, ou seja, essa maturidade, é que irá favorecer para que não ocorra uma nova gravidez futura, sem um planejamento prévio que é outro principal objetivo do projeto.

O que levam essas jovens a engravidar?

 

Algumas dessas adolescentes possuem um desejo de serem mães, da qual muitas vezes não tem consciência.
A falta de perspectiva de vida, pois muitas não vislumbram um futuro promissor, por não contarem com referências familiares de sucesso, que possam servir de modelo.

A falta de orientação sexual por parte da família é outro fator de suma importância, tendo em vista que, não conseguem estabelecer um diálogo direto, principalmente pela própria carência de informação dos pais que acabam encarando a gravidez na adolescência como algo recorrente no histórico de família, se tornando uma mera repetição.

Como então esperar que elas aguardem o tempo mais adequado para aproveitar a sexualidade como algo bom, saudável, porém que requer cuidados?

Agora com um filho começa uma nova fase. Se já era difícil fazer algo para ela mesma, agora será mais difícil ainda. Como conseguir um emprego para se manter? Como ter acesso ao lazer, esporte e cultura? Sem falar nas atividades que ela terá de se privar pela circunstância do bebê, na qual também é importante para seu desenvolvimento, como estudar, sair com as amigas, ir a festas, dançar… Agora ela terá um compromisso inadiável: ser mãe.

Flaviana Silva
Psicóloga – CRP 06/83028