Explorar capacidade de realização das mãos pode trazer benefícios

Para o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), a mão era a “ferramenta das ferramentas”. Mas pode ter sido justamente essa habilidade de criar instrumentos cada vez mais complexos que acabou deixando para a mão somente as tarefas mais mecânicas. O poder criativo de transformar a realidade, de dar vida a objetos, foi se tornando cada vez mais raro nas grandes cidades e, no ideário consumista, as mãos livres, e os seus respectivos polegares opositores, uma das diferenças evolutivas mais importantes entre o homem e o restante dos animais- foram relegadas a apertar botões, passar o cartão no caixa do banco eletrônico, contar o dinheiro, pagar e levar.

 

Mas, segundo psiquiatras, terapeutas, neurologistas e artesãos, o poder de criação e realização das mãos tem papel fundamental na recuperação da autoestima e do bem-estar e traz resultados positivos para o aumento da capacidade de concentração e de planejamento de quem as usa. “O homem de hoje está mais acostumado a desejar e escolher (ou ordenar) do que a imaginar e realizar”, diz a psiquiatra Anna Veronica Mautner, colunista do Equilíbrio, que, no recente artigo “A violência, a mão e o polegar” (ed. 5/8), escreveu sobre a importância de atividades que valorizam o uso da mão. “Não quero dizer que a pessoa tenha de ser artista, mas atos cotidianos como fritar um ovo do jeito que você gosta, com a gema dura ou mole, já dá uma sensação de bem-estar. O fato de realizar algo eleva a autoestima”, diz a psiquiatra.

 

“O barro me ensinou a ter paciência. Ele tem um tempo próprio. É preciso esperar para secar, tem a primeira queima e, às vezes, a peça quebra porque fica com ar dentro. Aprendi a baixar o meu nível de cobrança, não existe o certo e o errado quando você está criando”, diz a professora de inglês Marília Tardin, 44, que frequenta aulas de cerâmica. “Lá eu consigo me desligar dos problemas”, diz.

Fonte: minhavida.com.br

Como ela, muitas pessoas procuram uma atividade manual para aliviar as tensões do dia-a-dia. É o que diz Lucia Eid, 43, ceramista e proprietária da escola Olaria Paulistana (em São Paulo), onde Marília é aluna. “As pessoas chegam aqui com uma carga de ansiedade muito grande, mas, com o tempo, elas vão se soltando e se transformando.”

 

O psicólogo e psicomotricista André Trindade acredita na importância de “refuncionalizar as mãos”. “Na maior parte das vezes, usamos a mão mecanicamente, sem prestar atenção”, diz. Segundo Trindade, formado na Bélgica, a melhor maneira de mudar isso é, literalmente, meter a mão na massa. “No exercício de atividades como trabalhar com cerâmica, a função da mão não é mecânica, você se reconhece o tempo todo”, afirma. A dona-de-casa Golda Soriano, 62, estava se sentindo só e desocupada depois que os seus filhos saíram de casa. E foi Alexis, sua neta de 12 anos, com o desejo de aprender a costurar, que a despertou para as atividades manuais criativas depois de 30 anos longe delas.

 

Golda começou a ensinar Alexis a costurar, a pregar botão e a fazer tricô. “É como andar de bicicleta, a gente não esquece”, diz Golda, que aprendeu a usar as mãos no colégio. “As meninas aprendiam a bordar e os meninos, marcenaria. Era uma matéria normal, como latim”, lembra. “Uma pessoa pode ter uma dificuldade com memorização de histórias, não lembrar o que aconteceu ontem. Mas se ela aprendeu a bater um prego na parede, não vai esquecer. Você não esquece algo que aprendeu a fazer com o corpo”, afirma o neurologista João Radvany, do hospital Albert Einstein. O neurologista explica que as mãos, ao lado dos olhos e da boca, são as partes do corpo que têm maior representação no córtex cerebral. “E quanto mais o homem usa esses órgãos, mais essas áreas cerebrais se expandem”, diz.

 

“É pelo prazer e pela necessidade de estar em contato com a terra. Gosto de trabalhar na terra com as mãos, de ficar com o joelho sujo, cavoucar. É quando eu sou eu mesma, estou inteira ali. Me sinto conectada com o mundo e comigo mesma. Me sinto viva”, afirma a farmacêutica e bioquímica de formação, Angela Scheepstra-Wenzel, 50. Ela pegou gosto pelas atividades manuais quando foi morar na Holanda com o marido. “Uma vizinha me ensinou a fazer bonecas de pano”, diz.

Fonte: omelhordemorar.blogspot.com

 

Mas sua grande paixão eram mesmo as plantas e, ao voltar ao Brasil, há cerca de dez anos, escolheu uma casa com jardim para morar. Suas plantas acabaram chamando a atenção da vizinhança e um amigo lhe chamou para trabalhar em seu jardim. “É muito bom quando as pessoas reparam no trabalho que você fez. É bom para o ego”, diz Angela, que, há três anos, trabalha como paisagista.

 

A neuropsicóloga Anita Taub indica trabalhos de habilidade manual para pacientes angustiados e ansiosos. Para além de toda a função terapêutica, o simples prazer de trabalhar com as mãos já é o bastante para aquela tia que não larga o tricô, o marido que não sai da oficina de marcenaria por nada, a mulher que passa horas mexendo a terra no jardim. Não é para menos que, na etimologia, a mão significa princípio, ação, doação e labor.

Fonte: Folha de S. Paulo, editado por Ridete Pozzetti – FireFish Agência Web