Enjoos na gravidez: estudo identifica alterações em genes associados à hiperêmese gravídica

As famosas náuseas durante o início da gravidez são perfeitamente normais. No entanto, existe uma forma muito mais grave do desconforto, com sintomas severos e debilitantes, como perda rápida de peso, desnutrição e desidratação. É a hiperêmese gravídica (HG), complicação que ficou conhecida por afetar a duquesa de Cambridge Kate Middleton, e que atinge cerca de 2% das gestantes. Recentemente, um estudo feito pela Escola de Medicina David Geffen da Universidade da Califórnia em Los Angeles (EUA) comparou a variação do DNA de gestantes sem náuseas e vômitos, e as que sofrem com HG. Observou-se uma alteração em torno dos genes GDF15 e IGFBP7, associados à complicação. Com a identificação desses genes, que estão envolvidos no desenvolvimento da placenta e desempenham papéis importantes no início da gravidez e na regulação do apetite, pesquisadores passaram a enxergar um caminho para determinar se os níveis de proteína envolvidas podem ser alteradas com segurança na gravidez, reduzindo o problema. Conversamos com a pesquisadora Marlena Fejzo, principal autora da pesquisa, e que também sentiu na pele os efeitos da HG, para entender um pouco mais sobre o problema e as perspectivas para as gestantes que sofrem com os sintomas:

Por que a hiperêmese gravídica ainda é uma das principais causas de internação das gestantes, mesmo com medicamentos para amenizar os sintomas?
A droga mais eficaz para a HG é a Ondansetrona, mas ela ajuda apenas metade dos pacientes, em média. Por isso este estudo é tão importante. Ele aponta novos caminhos para que melhores opções sejam formuladas, atuando com sucesso na maioria dos casos. Essa é minha maior esperança.

Os genes envolvidos na causa da HG já haviam sido estudados antes?
Sim. Curiosamente esses genes (GDF15 e IGFBP7) já foram mostrados para desempenhar um papel na caquexia, uma doença com sintomas semelhantes aos da HG, como perda de apetite e de massa muscular. Atualmente, já estão sendo desenvolvidos inibidores das proteínas envolvidas nesse processo [são os genes que determinam a maneira como elas serão formadas], com melhora no apetite de camundongos. Portanto, estou muito esperançosa de que nossas descobertas levem a novas terapias para tratar HG.

Como foi sua experiência com a hiperêmese gravídica?
Nas minhas duas gestações eu tive HG. Da primeira vez, apesar dos sintomas graves, consegui levar a gestação até o final e tive um bebê saudável. Já na segunda gestação o quadro era tão grave que eu não conseguia me mexer sem vomitar. Nenhum alimento, sólido ou líquido, parou no meu estômago durante dez semanas. Foi uma tortura. E mesmo internada com o tubo de alimentação não consegui segurar o bebê. Sofri um aborto no segundo trimestre de gravidez. O aborto, aliás, pode estar ligado à diversas causas que tem relação com a HG. As mais cogitadas têm a ver com a deficiência nutricional, como a falta de vitamina B1, que impede o desenvolvimento cerebral do feto.

5/04/2018